O tema desta aula facilmente daria um livro.
Eu sou fascinado pelas questões que envolvem o "erro". Talvez por essas questões evidenciarem as maneiras pelas quais nós interagimos com a realidade, com o conhecimento e com nós mesmos.
O erro fala muito sobre nossos esquemas de percepção. Sobre nossas experiências. Sobre contexto.
Quer ver?
Quando eu era criança, eu frequentava muito a casa da minha vó, que ficava literalmente do lado da minha casa. A casa da minha vó era frequentada por todos os meus primos, que são vários.
Uma das coisas que mais fazíamos era jogar truco. E eu, um dos mais novos, estava ainda aprendendo a jogar.
A gente aprendia a jogar jogando, basicamente. Em uma das partidas, eu saí com cartas bem ruins, mas já havia entendido que, nesses casos, é possível blefar.
Para blefar nesse jogo, você geralmente grita "truco!" mesmo sem ter cartas boas, o que faz com que a partida valha mais pontos. Caso a dupla adversária não queira "pagar pra ver", eles podem "correr" do truco, o que os faz perderem somente a quantidade de pontos de uma partida normal.
Pela primeira vez na vida, eu blefei em um jogo de truco – até hoje consigo sentir a adrenalina do momento. O único porém é que, em vez de gritar "eu truco!", eu gritei "eu blefo!", o que obviamente fez meus primos rirem de mim por horas.
Essa história virou uma lenda na minha família. Até hoje algumas tias e primos recontam esse caso e eu adoro relembrar. Eu ri muito também.
Hoje, eu dou risada junto toda vez que alguém se lembra do "eu blefo!".
Mas o que essa história significa, afinal? "É claramente um erro, e um erro engraçado", você pode estar pensando.
Mas será?
A resposta é: depende de como você olha, e depende do contexto. Qual era o propósito de estarmos jogando truco? Nos divertir. Qual foi a coisa que talvez tenha gerado mais diversão em toda a história dos nossos jogos de truco?
O "eu blefo!".
Seria mesmo um erro, então? Ou talvez tenha sido um acerto – no sentido de gerar conexão e diversão?
"Errar", em geral, sempre está vinculado a uma quebra de expectativa. E é por isso também que o "eu blefo!" foi engraçado, pois o humor também opera a partir de quebras de expectativas das pessoas.
Desde tempos imemoriais, uma figura tem explorado profundamente as costuras entre erro, diversão e humor: o palhaço.
O palhaço é uma das imagens/arquétipos fundamentais para o aprendiz autodirigido.